31 March 2008

Amor

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

Eugénio de Andrade

DEVIAS ESTAR AQUI

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum.

Eugénio de Andrade

30 March 2008

Na Véspera

Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fitando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!


Álvaro de Campos

Mas Eu

Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.


Álvaro de Campos

Sem Ti

E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.

Eugénio de Andrade

28 March 2008

Ah! O mar..















O mar... cada vez que o vejo, que o sinto é como se a minha alma se libertasse do meu corpo e, nesse momento, eu sinto que volto a viver! Como eu gostava de ser assim..livre! Ter a força para lutar pelos meus sonhos, par alutar até ao fim por tudo aquilo que desejo, ter a força para me levantar, para erguer os olhos para o céu e acreditar que amanhã tudo será melhor, tudo será diferente... Queria ter a inocência de confiar que o amanhã é um novo dia, que a cada aurora a vida se renova mas... não consigo...


Queria acreditar que o caminho não vai ser sempre assim, com tantos obstáculos, com tantos vendavais a assolarem os meus passos, a destruirem os meus sonhos, a minha esperança... mas é demasiado difícil imaginar o fim da noite, o término do ecoar dos trovões, o vento a acalmar, as estrelas a voltarem a brilhar no céu...

Quando abro os olhos e tento vislumbrar o mundo através dessa muralha de lágrimas anseio que o sol chegue, toda a dor se evapore e eu finalmente consiga tocar o universo como se fosse a primeira vez e crer que a luz veio para ficar...

Foi tão inesperado o momento em que te vi, em que o teu sorriso tocou o meu coração, em que tu entraste de soslaio na minha vida e agora sei que vieste para ficar... Não imagino o que o amanhã nos vai trazer mas a realidade não me permite sonhar... De qualquer forma, foi bom ouvir a tua voz, o teu sorriso... Gosto da tua companhia... agrada-me a tua presença...

The Unforgiven

New blood joins this earth
and quickly he's subdued
through constant pain disgrace
the young boy learns their rules
with time the child draws in
this whipping boy done wrong
deprived of all his thoughts
the young man struggles on and on he's known
a vow unto his own
that never from this day
his will they'll take away

what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never be
never see
won't see what might have been
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never free
never me
so I dub thee unforgiven

they dedicate their lives
to running all of his
he tries to please them all
this bitter man he is
throughout his life the same
he's battled constantly
this fight he cannot win
a tired man they see no longer cares
the old man then prepares
to die regretfully
that old man here is me

what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never be
never see
won't see what might have been
what I've felt
what I've known
never shined through in what I've shown
never free
never me
so I dub thee unforgiven

you labeled me
I'll label you
so I dub thee unforgiven

Metallica

Que música escutas tão atentamente

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade in «Coração do Dia»


19 March 2008

Adeus

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;

Como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade


As Palavras Interditas

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

Green God

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Eugénio de Andrade

18 March 2008

Sonnet LXXXVIII

When thou shalt be dispos'd to set me light,
And place my merit in the eye of scorn,
Upon thy side, against myself I'll fight,
And prove thee virtuous, though thou art forsworn.
With mine own weakness being best acquainted,
Upon thy part I can set down a story
Of faults concealed, wherein I am attainted;
That thou in losing me shalt win much glory:
And I by this will be a gainer too;
For bending all my loving thoughts on thee,
The injuries that to myself I do,
Doing thee vantage, double-vantage me.
Such is my love, to thee I so belong,
That for thy right, myself will bear all wrong.

William Shakespeare

Sonnet XVIII

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

William Shakespeare

16 March 2008

Iris

And I'd give up forever to touch you
Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now

And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
Cause sooner or later it's over
I just don't want to miss you tonight

And I don't want the world to see me
Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am

And you can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in your lies
When everything seems like the movies
Yeah you bleed just to know your alive

And I don't want the world to see me
Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am

I don't want the world to see me
Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am

I just want you to know who I am
I just want you to know who I am
I just want you to know who I am
I just want you to know who I am

Goo Goo Dolls, City of Angels

12 March 2008




















Olho a chuva que cai lá fora e sinto as lágrimas que deixam o meu coração... O tempo corre sem demora, não pára um segundo, não me deixa respirar! Sinto-me sufocar por todas estas lágrimas, por todos estes pensamentos, por todo o meu mundo! Tento parar o tempo... Pára! Dá-me tempo...dá-me tempo...dá-me espaço para pensar...para fugir... deixa-me ir para um lugar onde o tempo não corre, onde a vida não foge e o mundo nos escapa entre os dedos! Deixa-me ir... Estou cansada de tentar tocar o céu e não o alcançar, de esticar o braço para tocar as estrelas e o que toco não é mais que o seu reflexo desfeito neste negro lago.

A noite põe-se lentamente lá fora mas eu já não vislumbro outro cenário que não esta penumbra contínua, esta noite escura e gelada que me entorpece o pensamento e fragmenta o meu coração.

Vejo-te aqui, tão acessível e tão inatingível! Percorres o teu caminho, com o olhar posto no horizonte mas eu consigo ouvir os teus passos, ver o teu vulto por entre as nuvens que impedem que o teu rosto se volte e veja em mim aquilo que eu vejo em ti...

Mas quem disse ao homem que ele poderia voar sem ter asas? Que poderia tocar as estrelas sem saber onde as encontrar? Eu não sei voar, nem tenho asas... Nunca toquei as estrelas nem imagino onde as procurar... Não conheço o segredo desse olhar, não conheço a chave desse coração, não leio os teus pensamentos... não chego até ti...

Tantos dias, semanas, meses, anos... a mesma aurora, o mesmo ocaso...o mesmo chão frio...o mesmo chão molhado...

09 March 2008

Is this love?

"Sympathy constitutes friendship; but in love there is a sort of antipathy, or opposing passion. Each strives to be the other, and both together make up one whole."

Samuel Taylor Coleridge

02 March 2008

Saber ver...

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras
eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos